28.2.05

Obrigado (2)

Obrigado a T. pelo texto

Rute Reimão: o sol e a noite

Conheci Rute Reimão num jornal, para o qual amigos meus me convidaram. A transferência assemelhava-se a uma tomada de assalto. Rute já lá trabalhava como
gráfica e ria alto. Um desses amigos piratas ficou como director gráfico. Quando me exigiram uma coluna semanal de opinião, ele propôs que Rute a ilustrasse. Eu, que a ignorava como criadora (problema meu), gostei da gargalhada e da timidez dela. Aceitei. Rute nada ilustrou. Sempre me obrigou – nesse malfadado semanário; o assalto falhou – a declarar com antecedência a matéria que iria tratar. Mas nunca ilustrou. Inventou sempre, em desenhos agrestes e desordenados, com palavras espalhadas como punhaladas num corpo barbaramente assassinado. A Rute transformava a realidade – ou melhor, a notícia – numa construção fantástica, gótica. Em traços violentos, quase sempre a preto e branco, raramente a cor surgia, Rute transformava a realidade em panfleto para chegar à poesia.
Um dia, forneci como tema central da minha crónica o poeta surrealista francês Antonin Artaud. E ela reinventou Artaud. Belo como ele havia sido na realidade;
maldito como ele sempre quis ser. Uma iluminação. Rute, agreste, suavizara o traço logo no tema mais violento que lhe propusera. Disse e volto a dizer: Rute não ilustra; Rute refaz um mundo alienado no qual só os desesperados se salvam. Quando o tema é demasiado banal, ela desvia-o pelo humor. Reencontrei-a no diário A Capital. Irónica, guardou paciência para acompanhar as minhas pobres crónicas.
Se ainda houvesse grupo surrealista, Rute Reimão seria uma das egérias desses insurrectos da palavra, desses comunistas do génio. É filha do sol ou filha da noite? É
filha da sua obra clandestina. Como convém.